Autoriza a Bíblia a Excomunhão Praticada
Pelas Testemunhas de Jeová?
Por Carlos M. Silva,
18/10/03
Introdução - O Caminho da Verdade
Ninguém tem o direito de impor suposições
religiosas a outras pessoas, e ainda chamar tais suposições de “verdade”,
tampouco negar que existe essa imposição, se os fatos mostram isso.
Normalmente, os que aderem à religião não
possuem o amplo conhecimento necessário para fazer um julgamento adequado,
possuem apenas um conhecimento superficial da situação. Mas como estão
encantados por algumas informações cativantes, que podem até ser corretas,
deixam de perceber todas as implicações.
O tempo passa e a pessoa que aderiu à nova
religião é incentivada vez após vez a repudiar o senso de pesquisa e
investigação, a não ser que se faça isso usando-se as publicações que o poder
central da religião fornece. Aos de fora, os líderes dizem que os seus
seguidores são pessoas esclarecidas e pesquisadoras. É claro que eles não usam
a palavra “seguidores”, dizem que são apenas seus irmãos, e que todos juntos
seguem a Cristo. Em momento algum eles revelam que têm dúvidas em alguns
assuntos que eles impõem aos seguidores. Passam aquela aura de perfeição e
infalibilidade, embora oficialmente eles afirmem “humildemente” que são
imperfeitos e falhos. Está assim montado o cenário para proteger os interesses
dos líderes, que sabem da fragilidade de alguns de seus ensinamentos.
Mas se algum membro da religião resolver
pesquisar profundamente, com mente aberta e por conta própria, alguns
ensinamentos oficiais de sua denominação, facilmente detectará alguns erros. No
início, relutará em aceitar o que vê. Quanto melhor o nível da pesquisa e os
recursos disponíveis, maior será a surpresa do investigador. Nesse momento, ele
percebe que não pode revelar isso a nenhum de seus irmãos, pois eles estão
enclausurados nesse sistema de proteção arquitetado pelo poder central. Sabe
também que se abrir a boca, será expulso da religião que ele apoia por anos –
será excomungado. Tal pena consiste em nenhum de seus irmãos falar com ele, e
considerá-lo um rebelde que merece a morte eterna. Ele sabe que tal tratamento
seria injusto, pois ele não perdeu a fé em Deus, e continua acreditando nos
ensinamentos realmente importantes de sua religião. Portanto, ele se vê numa
situação que o coloca à beira do ostracismo. Só resta a ele esperar a justiça
de Deus, e orar para que seus irmãos um dia venham a conhecer a verdade a
respeito de onde estão.
Muitas das supostas verdades da religião não
passam de raciocínios humanos, embebidos em arrogância, orgulho e falta de
humildade, que combinados com conceitos errôneos anteriores, perpetuados ao
longo dos anos, geram a atual situação prevalecente: a ignorância vestida do pseudo-esclarecimento.
É bem evidente que a pesquisa, a meditação e
a oração, juntos com sinceridade de coração e verdadeiro interesse de se
agradar a Deus, são elementos importantes para se chegar a um conhecimento
adequado e pleno das Escrituras. Mas o fato de se alcançar certas pérolas do
conhecimento bíblico, que com certa medida de segurança podem ser chamadas de
“verdade”, não justifica que todas as teorias e opiniões pessoais devam ser
colocadas nessa mesma categoria, nem dizer que tais coisas são a “verdade” que
desce da parte do Altíssimo, quando, de fato, não passam de raciocínios de
homens que estão convencidos de sua posição especial perante Deus, em
detrimento de seus semelhantes. Homens que em nenhum momento admitem que não
têm certeza de certas coisas que ensinam, e que quando modificam algum
ensinamento importante, que afetou a vida das pessoas, dizem que foi uma “nova
luz” que acabou de chegar da parte de Deus, e não assumem qualquer
responsabilidade dos excessos que cometeram.
O que acontecerá se algum adepto cobrar
deles uma atitude de responsabilidade? Será vítima de uma inquisição, e num
julgamento simulado será expulso da irmandade. O que acontecerá se alguém de
fora fizer essa mesma cobrança? Os líderes encararão isso com completo desprezo,
pois afinal de contas todos os que estão fora de sua religião já estão
condenados por Deus. É como diz certo escritor:
“Têm consciência de ser um povo fiel, uma
minoria eleita.... Têm bem nítidos os limites que os dividem dos outros. Os
outros, a grande maioria, são apóstatas, moralmente pervertidos, arrastados
pelo mundo. Enquanto o ‘nós’ (fundamentalistas) constitui o resto fiel aos
princípios fundamentais e imutáveis.” – O
Outro é o Demônio, Uma Análise Sociológica do Fundamentalismo, de Ivo Pedro
Oro, Ed. Paulus (1996).
Que as palavras do escritor bíblico sejam
ainda mais magnificadas: “Seja Deus achado
verdadeiro, embora todo homem seja achado mentiroso, assim como está escrito:
‘Que sejas mostrado justo nas tuas palavras e venças quando estiveres sendo
julgado.’” – Romanos 3:4.
Uma análise contextual - Parte 1
Durante um grande período da Idade Média,
pessoas foram perseguidas, condenadas e queimadas na estaca como hereges, por
causa do único “pecado” de discordar de certos ensinos da Igreja Católica. A
promoção de ensinos contrários à direção papal era punida com toda a
severidade. A mera divulgação das Escrituras Sagradas, a Bíblia, podia ser
punida com a morte. Não importava aos inquisidores se o julgamento era justo ou
não, contanto que os seus interesses fossem preservados. Qualquer justificativa
que fosse usada para explicar tais julgamentos pungentes não passava de figura
de retórica.
Além das execuções físicas, outra “execução”
era infligida às almas “rebeldes” e “pecadoras”. Tratava-se da excomunhão. A
Igreja Católica não só se achava no direito de privar as pessoas de viverem
pacificamente, mas também achava que tinha as prerrogativas de excluí-las da
vida eterna. As aspirações cristãs da pessoa que caísse em tal julgamento
estariam ameaçadas. O opróbrio e a desaprovação de Deus seria o destino da
infame alma. A visão de tal fim era tão aterradora que intimidava reis e
autoridades. A excomunhão era uma arma espiritual de grande importância, já que
os dirigentes religiosos dificilmente conseguiriam por as mãos em pessoas de
nobre estirpe, para levá-las à fogueira.
“Mas isso é coisa do passado”, alguém poderá
dizer, “a Igreja Católica e as demais religiões cristãs não praticam mais esses
excessos”. Embora seja verdade que a Igreja Católica, através de João Paulo II,
tenha pedido perdão (mea culpa) por
alguns julgamentos inquisitoriais do passado, oficialmente o Código de Direito
Canônico do Vaticano, ainda mantém a excomunhão como expediente de punição.
Esse código prevê, por exemplo, que os que abandonam a Igreja em prol de outra
fé, já estão automaticamente excomungados. Quanto às diversas igrejas
protestantes, não se têm notícias de que elas praticam a excomunhão. Mas existe
uma religião que “aprimorou” a excomunhão, dando a ela uma conotação de
execução sumária do “errante”.
Imagine que você é um cristão dedicado, ama
a Deus e é cooperativo na sua igreja, a única que conhece desde a infância. Ao
completar dezoito anos, você é convocado pelo Estado a prestar um serviço
militar compulsório durante um ano. Então, você explica que não pode se dedicar
a essa atividade por causa de sua consciência cristã, que não pode se sujeitar
ao adestramento militar. O Estado lhe oferece como alternativa trabalhar
algumas horas por dia num serviço civil, talvez numa creche ou num hospital. Se
você não aceitar essa opção será separado de sua família e ficará por tempo
indeterminado na prisão, sofrendo todo o tipo de pressão psicológica. Você
pensa e resolve aceitar essa obrigação em lugar do serviço militar.
Ao retornar à sua igreja você comunica aos
líderes a sua decisão. Em virtude disso, você é convocado para um julgamento
secreto com eles. É um julgamento só no nome, pois o que eles querem mesmo é
comunicar que você foi desassociado (excomungado), por desobedecer a ordem do
comando central da igreja, que diz que é pecado entrar no citado serviço civil
alternativo. A partir de então, você será considerado uma pessoa iníqua. Todos
os seus únicos amigos estão proibidos de falar com você, e de lhe cumprimentar.
Na mente dos seus queridos irmãos da igreja, se Deus fosse destruir os maus
hoje, no esperado “fim do mundo”, você provavelmente seria um dos executados
sem nenhuma perspectiva de vida eterna no paraíso. Para eles você já está
morto. A partir de agora você é um infiel a Deus, aguardando apenas a execução
literal.
Como você se sentiria na situação descrita
acima? Ela pode parecer inverossímil para quem nunca se deparou com algo assim,
mas é uma realidade hoje em dia para milhões de pessoas. É assim a excomunhão praticada
pela religião conhecida como Testemunhas de Jeová, que já ultrapassa a cifra de
seis milhões de adeptos no mundo inteiro. A citada proibição, do serviço
alternativo, foi abolida em 1995, e não é mais pecado. Na verdade, nunca foi.
(Mas até aquele ano, em vários países, milhares de jovens Testemunhas de Jeová
ficaram muitos anos em prisões por obedecerem a ordem que emanava do poder
central conhecido como Corpo Governante). Ainda resta, porém, uma elaborada e
infindável lista de pecados e delitos que as Testemunhas devem evitar, se não
quiserem ser punidas com a desassociação. Alguns desses pecados são claramente
especificados na Bíblia, outros não.
Tendo
em foco o que foi relatado aqui, resta perguntar: O padrão de excomunhão das
Testemunhas de Jeová encontra verdadeiro apoio das Escrituras? Autoridades
religiosas estão realmente autorizadas por Deus a decidirem o futuro eterno das
pessoas? O próximo artigo examinará esses pontos.
Autoriza a
Bíblia a Excomunhão Praticada Pelas Testemunhas de Jeová? – Parte 2